terça-feira, janeiro 27, 2009

Em paralelo

Um passo e outro, mais outro ainda, a escuridão dir-se-ia ofuscante pela forma como inunda os olhos ocultando tudo em redor. Um passo, outro passo, aqui e ali gotas que ressoam discretamente e que juntamente com os passos ecoam, quase que timidamente, no espaço. No fim de cada ruído um abismo de algo grave e vibrante, algo verdadeiramente impossível de descrever de forma clara e que se não fosse do conhecimento geral que o som não se propaga no vácuo, alguém pleno de ignorância diria que era fruto dos triliões de corpos que de uma forma ou outra se deslocam pelo universo. Surge então aquele turbilhão de pânicos, aquela insustentável consciência de que temos de fugir do vazio se queremos ser, enquanto em terror cada passo que se dá profana o ressoar. Talvez seja o corpo a funcionar que o provoque mas por mais que se busque não se escuta o coração, apenas e sempre o som grave, que nem som é em verdade, e que após cada ruído, cada passo, cada gota, surge de rompante novamente, como uma onda furiosa a rebentar que se desloca algures entre os espaços, nem dentro nem fora do corpo, mas em contacto com o mesmo.

Agora abdicara mesmo de se mover. Agora abdicara mesmo de se mover. Agora abdicara porque havia encontrado um local mais seco, sem as gotas a trautearem as suas quedas, sem profanações. Agora abdicara mesmo de se mover porque se havia entretido a procurar na tranquilidade da escuridão a natureza da sua inquietude.

E quando se escuta com cuidado, nada ouvindo, encontra-se uma noção de urgência que se escapa, algo de electrizante que parece inflamar as faces ao mesmo tempo que aparenta ocupar todo o cérebro ao ponto de o poder fazer rebentar. Há algo neste sono dos fotões que apela à desumanização, como se fosse possível sondar algo que não é mas que existe, como se todas as contradições pudessem coexistir para além do Caos e da Ordem, mesmo além dos cachos de Universos e dos caules que os unem. Um passo, outro passo, mais um passo ainda, quebra-se a multidão de silêncio, desfia-se o pensamento em pequenas cordas vibrantes que se estendem até pouco mais que o infinito.

Agora decidia mover-se. Agora decidia mover-se. Agora decidia-se porque não lhe restava escolha. Pudesse eu falar com ele e dizia-lhe o que via. Sem que se desse conta ele mesmo se desfiava a cada passo mesmo quando quieto. Atrás de si no Tempo uma linha por cada parte de si, um tecido impossível de conceber em que ele mesmo se iria diluir. Um emaranhado de tudo o que foi desagua no que é agora e mesmo olhando para trás não o veremos, não vemos o passado mesmo quando ele estrondoso nos vibra. E não adianta procurar ângulos novos, perspectivas... Acende-se por dentro um turbilhão com um vislumbre, a própria mente dobra-se sobre si mesma, como que por momentos lançando-se nesse outro sentido, algures entre os espaços, nem dentro nem fora do corpo, mas em contacto com o mesmo.

Quebrou a escuridão com o silvar do isqueiro.

Sereno seguiu pelas avenidas de sonhos de Tritão, contemplando a majestade gélida que mais que uma presença no horizonte era o Horizonte em si. E ali ficou contemplando até emergir a coragem para os próximos passos, agora bastava-lhe o que via, o irradiar gélido e luminescente pleno de glória e o fumo do pica que fumava a despenhar-se gelado sobre o solo. O fumo a estilhaçar-se, crepitando mal lhe saía das narinas e que formava, lentamente conforme se aglomerava, uma pequena torre cinza mas de ténue brilho azul. Menos que uma torre seria um pequeno monte, mas a esperança, a ambição e sobretudo a liberdade a que se dava no Tempo, permitiam-lhe aspirar a uma torre, não fosse a escuridão voltar.

sexta-feira, novembro 07, 2008

A dádiva

Ele andava perturbado, assombrado. Pesava-lhe o semblante interiormente muitas vezes ao dia. Dava por ele a cair em poços profundos aparentemente por nada, absolutamente por Nada. E quando caia via-se abstraído de onde lhe pousavam os pés, alheio, e sucessivamente ocupava-se a perguntar a esse Nada questões que o deixavam atónito, quase enfeitiçado pelo que lhe pareciam ser as paredes que o limitavam. Enlevado apaixonou-se pelas suas texturas, provava-as questionando, tocava-as com fluentes multidões de infantis porquês - Porquê? Porquê assim, e se assim porquê? Porque Nada?! Então, mas, se porque Nada porquê? - E perseguia esse Nada sem compreender o quão longe do chão ficava, conquistando espaço em cada questão viu-se a deslizar até um ponto em que tudo era apenas isso, pontos suspensos no Vazio, tão longe que não reconhecia a sua casa, o seu lugar. Sentia-se diluído no total do espaço a que chamamos Universo, parte integrante e sensível do mecânico e alheio corpo divino, mas os porquês sucediam-se, sempre a palpar os contornos do Vazio. E tal se tornou a vertigem que até em pleno sono se via mergulhado atormentado pelas suas visões. Sentia-se agora asfixiado pelo próprio Universo sensível, como se nos seus delírios Ele já não fosse por si uma fonte de perguntas, como se esse confinado espaço lhe estivesse agora disposto a deixar passar as fronteiras do firmamento, concedendo aquilo que agora lhe parece inconcebível. Uma dádiva envenenada de questões impossíveis de materializar formalmente.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Espargindo

- Todos nos movemos por alguma razão, nem que seja porque não podemos estar parados. A gravidade lança-nos amarras ao corpo e nem tão pouco em pensamentos nos conseguimos em absoluto libertar. E em lenta centrifugação nos diluímos uns nos outros, confluímos ideias, fundimos corpos e noutras vezes, talvez em soberana paixão, dilaceramos a forma e a alma alheia deflagrando-lhe o nosso mais vil e violento gesto. Ao mesmo tempo aspiramos veemente a ser mais, mais do que algo que não se sabe o quê... Pois eu acho que não podemos ser mais, não mais que putas e vilões. Não mais que palavras sem qualquer fundo de verdade, porque a verdade ilimitada e independente é só uma e chama-se Universo. Tudo o resto acaba, em absurdo, por ser vazio em si.

Isto posso dizer que me foi dito sofregamente no mais horrível dos cenários. Era uma sala pequena repleta de uma luminosidade pálida, que mais que luz aparentava-se com uma espécie de fumo ou neblina, mas que de facto era luz, uma luz que se ia esbatendo em direcção ao recanto mais distante da divisão até se tornar profundamente negra. E lá deitada estava uma mulher nua. Mas não foi ela que o disse, pois essa mulher encontrava-se morta, de barriga aberta e com entranhas espalhadas um pouco por toda a sua beleza e na sua barriga estava um recém-nascido. Mas não foi ele que o disse, pois o recém-nascido havia-se suicidado de dentro da barriga da própria mãe com um tiro na cabeça.

Fui eu que o ouvi.

- Todos nos movemos por alguma razão, nem que seja porque não podemos estar parados. A gravidade lança-nos amarras ao corpo e nem tão pouco em pensamentos nos conseguimos em absoluto libertar. E em lenta centrifugação nos diluímos uns nos outros, confluímos ideias, fundimos corpos e noutras vezes, talvez em soberana paixão, dilaceramos a forma e a alma alheia deflagrando-lhe o nosso mais vil e violento gesto. Ao mesmo tempo aspiramos veemente a ser mais, mais do que algo que não se sabe o quê... Pois eu acho que não podemos ser mais, não mais que putas e vilões. Não mais que palavras sem qualquer fundo de verdade, porque a verdade ilimitada e independente é só uma e chama-se Universo. Tudo o resto acaba, em absurdo, por ser vazio em si.

sábado, outubro 11, 2008

V

O pensamento é um local denso. Percorro as ruas a custo, passo a passo, rendilhando a cidade como que perdido, divagando. Sinto os pés pesados como que a andar contra uma corrente que ao olhar para o chão, constato. As ruas são então leitos ocultos sob torrentes de sangue. Com esforço subo mais uma colina por um emaranhado de paralelos e perpendicularidades, dobro a esquina, com mais esforço ainda, e ao contornar o ultimo e maior dos edifícios vejo toda a cidade coberta de um carmim iridescente a desaguar no Tejo. Ao fundo, além da ponte, um orifício incandescente no céu de onde surde a jorro o sangue. Continuo então a caminhar a custo, é tão denso o local dos pensamentos! Ao chegar à Rua Augusta decido subir ao Chiado e ai, subir ainda mais até me cruzar com o Pessoa, onde ele firme e de perna cruzada resiste resoluto ao caudal. Procuro o largo do Camões e não o encontro. No seu lugar há um jardim, um éden vibrante onde me decidi a esperar que a loucura passe na sombra dividida de duas árvores, uma de cerejas cristalizadas, a outra de pêssegos em calda. Virado para a Rua do Alecrim, onde a corrente desaba furiosa, ocupo o tempo a ver a agonia bovina dos arrastados.

sexta-feira, junho 27, 2008

2

Dois Homens vagueiam pelo deserto:

-O futuro está para a frente, vem em último.
-O passado está atrás mas vem primeiro.
-E o presente? O presente nem chegou nem vai chegar e no entanto é eternamente.
-Estranho é o tempo.
-Não menos o espaço.
-Sim, certamente. Entre as minhas mãos há uma distância infinita que posso conter na finidade dos meu braços.
-É isso mesmo, dividir o finito infinitamente.
-Passatempo dos melhores!
-Ocupa-se o tempo com o espaço.
-Sim, faço-o desde pequeno. Ocupava tardes inteiras a desejar a cegueira das pedras.
-Eu, quando que me perguntavam o que queria ser quando crescesse, respondia sempre que queria ser pó.
-Ah,Ah! Resposta original. Agora também penso assim. Felizmente que não me tornei pedra, não teria paciência para tanto.
-Então boa tarde!
-Boa tarde!

quarta-feira, junho 25, 2008

O Diabo é um Homem doido

A loucura apresenta-se como o além, o desconhecido. É um reino oculto para o Homem vulgar, tocado por alguns e habitado por poucos. A esses, sempre tão vulneráveis como qualquer outro Homem, acresce-lhes semear o medo aos restantes que de uma forma ou outra se ancoram pela "normalidade".

O seu poder demoníaco assenta no fosso intransponível que separa as realidades, na incapacidade de compreender porque motivo dada mente fez da curvatura espaço-tempo um circulo e nos abandonou à nossa domesticação perfeita. Que animal é aquele que vive em nós, que espírito se oculta nas primitivas profundezas do nosso cérebro?

Irá Ele acordar um dia?

E como resposta oferecemos uma prisão, escondemos dos olhos do mundo que existimos. Se o Diabo bate louco na janela, parece-me que aspira à liberdade... Não será tão louco quanto isso.





(Clip retirado do filme "Titicut Follies" de Frederick Wiseman com o som posteriormente editado/manipulado por mim.)

quinta-feira, maio 29, 2008

Veneno

Para ser sincero o veneno é belo, escorre-me pela ponta do queixo até ao pescoço, mela-me as mãos como a uma criança. O Veneno, para ser honesto, tem tons de oiro e brilha-me no corpo. E no fim das tardes de Verão, o veneno dissolve-me, canta-me da terra ressequída, sôfrega da noite, oferece-me o sufoco murmurante dos solos cobertos de asfalto. O veneno faz, enquanto eu olho o céu, as estrelas pousarem incandescentes nos meu olhos e eu nem me atrevo a pestanejar.

O veneno lapida-me, é fricção, arranca de mim o que é velho, funde-me os extremos. Cabe-lhe o lugar de diluir os mundos, rasgar a pele do espaço perpendicular à minha natureza. Ser memória por viver, inacção realizada, presente, passado e futuro mas menos, esquina de uma recta feita de gestos de dragão.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

O Ser

Lembro-me de estar numa sala imensa. O chão era uma enorme superfície de madeira salpicada de tapetes coloridos, as paredes altas, mais altas que o normal e a luz que iluminava o espaço provinha de uma ampla janela de onde brotava a parca claridade típica de um dia de Outono.

No espaço circulavam uns poucos seres gigantes, pouco me lembro deles, só que, se não eram mudos, aparentavam.

Pouco mais me lembro que isto. Tenho também, uma muito vaga ideia de que junto comigo haviam outros semelhantes a mim, mas deles nada soube. Algo em mim, uma força que embora sendo minha não me pertencia, cavou um abismo impossível de transpor.

E ali fiquei, sentado no chão, submerso numa agonia que ainda hoje consigo reviver ao pormenor. Lembro-me claramente de sentir todo o meu corpo prestes a rebentar devido ao choro convulso em que caíra, lembro duma angustia sem consolo possível, uma raiva, que me fez esquecer provavelmente as vezes em que um desses seres gigantes me tentou resgatar a uma calma que nunca seria minha.

Este foi o meu primeiro e único dia no infantário. No dia seguinte libertaram-me de novo nos campos de cereais que me pintavam o olhar, e onde, sem o saber na altura, um dia iria correr como que a cada passada quebrando as correntes que o mundo me havia prometido. Ali, onde me tornaria no Homem e no Monstro que sou.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

III

Espreito pela janela do comboio e os céus ainda estão cinzentos. Abençoados sejam.

Os fantasmas por aqui deambulam como sempre, vestidos da sua morte. A mim cobrem-me as vestes deste ódio dourado que me fez cego para o mundo. Lá fora o rio segue sempre cheio dos meus pensamentos.

À volta do meu pulso firma-se algo – a tua mão. Gritam os carris, os fantasmas, o Rio, os céus, A velha Leviatã! O choro Dela é meu! Os bandos de chapéus-de-chuva a voarem paralelamente ao comboio recolhem-se, recolhe-se o mundo, numa esfera de improvável azul, fecham-se as pálpebras, recolhem-se as lágrimas com a ponta de ouro de uma asa. A tua mão, firme em mim, a tua mão seguida do teu corpo e do fogo dos teus cabelos e seguindo a extremidade dos teus cabelos… vinte e cinco mil, vinte e cinco mil milhões de quilómetros sem te reconhecer, a distância exacta que separa a minha mão esquerda da oposta.

E o peso dessa distância carrego-o junto com o meu silêncio, é meu nesta viagem.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Restos de



quinta-feira, novembro 22, 2007

Id

Velho. Sente-se velho. Pesa-lhe a terra inteira sob os pés a cada passo, pesa-lhe todo o universo em cada respirar.

Na beira da pedra onde escolheu sentar-se, pesa-lhe, sobre a curvatura das costas, todo o tempo que viveu. Na palma da mão esquerda plana-lhe o olhar vazio, sem admiração contempla o enxame de galáxias que guarda no seu punho.

Que nome lhe dar? Na falta de não poder escolher nenhum ter, tem-nos a todos, porque no seu entender tudo e nada significam o mesmo.

O Velho não tem língua, conquistou o sagrado silêncio à custa de cortar a sua própria língua e lançá-la aos vermes que vivem no abismo da sua mente. Nos raros momentos em que se sente só, como no dia em que se sentou na pedra, limita-se a esticar o pescoço para os céus e abrindo a boca faz vibrar a sua garganta num profundo ecoar que se une no eterno movimento.

Ao Ermita ninguém olha nos olhos. Resvalaram os pés no limite do vazio negro e circular dos que tentaram.

Passaram muitos dias desde que se sentou na pedra, dias e noites. Desabaram nuvens por inteiro sobre o seu corpo e o Abandonado, imóvel como uma estátua, vibrante e ressonante de cabeça erguida às estrelas até finalmente mergulhar profundo no seu silêncio, dispersando a solidão como se um bando de aves fosse.

Os seus desesperos eram feitos à medida da sua natureza, chamaria todos os Homens até si, tivesse ele língua para falar, para de uma só vez os reduzir a cinza na palma da sua mão. E a si não se pouparia, Ódio, desprezava-se igualmente, por vezes numa fúria desmedida fazendo agitar os mares e os solos revolverem. O seu ódio era tão perfeito quanto completo, do exacto tamanho do seu amor.

Na verdade amaldiçoava o dia em que tinha trocado o incesto com dragões para conhecer o Homem. Na verdade, a Verdade, amava de forma igual a sua actual simetria.

E então caminhou para longe da pedra esquecido do que o fizera sentar.

sexta-feira, novembro 16, 2007

sem nome

Ouve-me.

Se um dia os espaços cederem, perdoa-me.

Se for levado ao sono num vibrar imenso, perdoa-me.

Hão de haver pássaros em susto a cruzarem o céu no fim de todas as noites.

…a dispersão.

Vejo-me de dorso curvado, cravado de estrelas, narinas dilatadas a expelir poeiras luminescentes, peito a expandir e contrair com uma violência métrica…

Silencio!

Ouve-me!


Perdoa-me, mas o eterno é limitado à circunferência dos meus Demónios, não há outro lugar onde se contenha. Difere tudo, tão-somente, no pormenor de em interna confidência eu lhes ter jurado que agora não se trata de quem vai ceder, mas sim, que se não cederem me perdem. Eles antes de ti.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Medo

Acerca-te de mim.

Chega-te bem perto do abismo e vislumbra o insondável, que eu faço o mesmo. E se sentires a força de braços serpentinos e, o atrito de escamas firmando junto das tuas costelas, não temas, não tremas, sou Eu.

segunda-feira, julho 16, 2007

O velho órfão

A vida é um cálice vazio, tentamos a todo o custo enche-lo mas não compreendemos que ele se enche de nós mesmos até ao dia em que transborda - isto dizia-me o meu pai há mais de 60 anos. Dizia também, enquanto sulcava a terra para a plantar, que a luz era como as sementes e as plantas que delas provinham, mais importante para ele eram as terras de onde brotava a vida do que a vida em si. A escuridão cósmica, para si, era o corpo do Senhor, todo Ele erguido e apoiado sobre si mesmo, majestoso e contemplativo, fazendo brotar de si o seu raro fruto, a luz.

Da terra o fruto, das trevas a luz, do silencio o ruído… Dizia ele, o meu pai, que a prova da existência e gloria do Senhor era confirmada na simples constatação de que ele era o inicio e o fim de todas as coisas, o fruto vinha da terra apenas para voltar mais tarde à terra.


Agora moro exactamente na mesma casa, fico-me pelo alpendre a contemplar as estações a passarem na companhia dos gatos a quem pertenço. O cálice do meu pai já foi bebido há tempo de mais para me lembrar, recordo apenas o sonho que tive na noite em que partiu. Estava eu nu e sem idade deitado sobre um chão frio de uma sala como nenhuma outra sala, toda ela parecia não ter fim e no entanto via-lhe paredes de mármore a erguerem-se infinitamente. No meio da sala lá estava um cálice e sobre ele pingava um liquido provindo de um possível tecto. O cálice estava cheio e gota a gota acabou por transbordar. Uma mão tomou forma, e delicadamente colocou o pé do cálice entre o dedo médio e o anelar e com a palma apoiou o fundo erguendo até aos lábios que se materializaram num instante para o beber. Depois disso lembro-me de acordar rodeado pelas lágrimas do todos os que habitavam a casa, nunca mais vi o meu pai. Acabaram todos por partir e sobrei eu por acreditar que estando sozinho e afastado dos Homens se resolve o único problema da morte.


Hoje caiu mais uma estação, as cores do Verão atearam o Outono nos campos e até o meu corpo serve de poiso ao dourado do ar. A árvore dos recém-nascidos está carregada dos seus frutos e ouvem-se os seus gritos mesmo por entre o ruído do vento em todas as outras árvores. Os gatos agitam-se e juntam-se ao choro do coro, agito-me eu também e caminho até à árvore para colher um fruto. Ao retirar o recém-nascido gera-se um estranho silencio, caminho de volta ao alpendre apoiando o bebé de encontro à pele macia e rugosa do meu peito, sento-me na cadeira de baloiço a contemplar o perfume de pavor exalado pela árvore.

Baloiço… baloiço… baloiço sem parar, a cabeça do menino encontra conforto no meu peito enquanto os seus lábios procuram os meus mamilos. Do olhar semi-consciente dos gatos sente-se a ternura do momento a acalmar os espaços entre os corpos, finca-se então a boca no meu mamilo esquerdo e as gengivas nuas a comprimirem a carne entre elas. O bater do meu coração, cada vez mais rápido, de encontro à pequena cabeça, as pequenas mãos a explorarem o meu peito e face, desenhando com a ponta cega dos dedos as minhas rugas.

É assim todos os anos no primeiro dia de Outono, agora dois ou três dias passarão em que apenas me deixarei estar aqui pelo alpendre até que o menino morra da minha fome, depois largo-o no meio dos gatos para o comerem.
Mas só mesmo depois de morto, não sou uma pessoa cruel, não para os Homens e muito menos para os Gatos.

quinta-feira, junho 28, 2007

Sobre A Sede

Mais uma vez o Deserto. A frequência com que o Deserto aparece nos meus escritos explica-se facilmente. No sitio onde vivo só se vê Deserto, seja qual for a janela que eu escolha. E por mais horas que perca sentado na soleira da minha alma a contemplar tão despidas paisagens, não me canso. Não poucas vezes, ou todas, dependendo da profundidade com que sou lido, também é verdade que a morte, ou a Morte, marca sempre o fim do que escrevo, mas quanto a isso pouco posso fazer, a morte é vulgar, é o que de mais trivial há na vida e é sempre o fim de todas as historias. Não seria por viver no Deserto que ela se tornaria mais ou menos vulgar, por aqui também se morre como em todos os outros sítios. A diferença está, a meu ver, no tempo que decorre entre o nascimento e a morte, a vida, que aqui tem um valor maior do que em outro qualquer local no mundo.

Neste local tudo é belo, foi isso que me levou a assentar Lar por aqui, antes de se conhecer o Deserto tudo no mundo nos parece adquirido, como se os corpos, animados ou inanimados, não fossem donos de qualquer existência e apenas fossem por si mesmos, sem lutas, sem terrores. Mas da primeira vez que se estabelece o dialogo entre os nossos abismos e este mundo, compreende-se tudo de forma diferente. Hoje sei que moro distante de tudo e todos, mas sei também que os Homens que vêm até mim tiveram de passar um Deserto para me chegar e se o passaram até esta morada foi porque dentro deles existe, antes de um amor à minha pessoa, um Amor maior a tudo o que significam estes espaços, uma compreensão das Sedes que aqui reinam. E eu sei que sou infinitamente mais pequeno em tudo que o Deserto, e mesmo morando em todos os recantos dele, sei o ridículo que é quando uma voz Humana nos diz amar mais que tudo no mundo… Ora bem, uma voz destas só pode ser de uma alma toscamente talhada ou de alguém que mesmo tendo pisado as areias nunca as conheceu. E a esses, eu que me tornei também Deserto, como já escrevi, tenho somente para oferecer a ilusão, e julgo que não por culpa minha.

O que quero dizer, nesta carta dirigida aos que habitam os meus espaços vazios, é que quando se está no Deserto não se deve procurar formas de matar a sede, mas antes formas da Sede ser a nossa Morte. Porque se o matar da sede é em si mesmo um fim, o acabar de uma vontade que nos move, a Morte pela Sede é o continuar de um caminho movido pela vontade rumo ao eterno.

(Sei que não tinha de escrever nada disto, poderia limitar-me ao Deserto das palavras onde eles igualmente me conhecem. Mas antes de escrever este texto, enquanto mais uma vez olhava as minhas areias, lembrei-me que na vida as pessoas que amo são raras como os Desertos e que nunca posso possuir delas mais do que dois punhos cheios.)

terça-feira, junho 26, 2007

A Figueira


Floram no chão as chamas do meio-dia e os subterrâneos vapores que turvam o horizonte. Fora o canto áspero das cigarras, toda a vida aparenta estar ausente deste mundo, apenas Urukagina se arrasta verticalmente como que embalado pelo ziziar dos machos… senta-se na sombra perfumada da Figueira ensaguentando o solo com o seu suor e já coberto pelo sombrio lençol, prende os olhos nos leves seios que desenham a paisagem de Sirpula. Pretende esquecer-se dos Homens e dos Deuses, por isso abandonou a sua cidade em plena hora de morte no Verão e partiu em busca de uma arvore da qual pudesse ver todo o Mundo livre do que não fosse Mundo, virando as costas aos que o amavam e ao seu majestoso templo que riscava os céus. O coração bate-lhe pesado no peito fazendo pulsar até a alma, ainda com o respirar profundo como os poços do deserto estende o corpo ao comprido sobre o vermelho das terras apoiando a cabeça nas raízes da Figueira. Todo o seu ser vibra com a frescura desta sombra, abandonado lentamente pelo cansaço que o ia carregando ao longo da sua caminhada.

Na copa da arvore os frutos encontram-se inchados, grandes como punhos cerrados, cobrindo Urukagina com o seu mel, mas ele ignora-o, perde-se agora nos espíritos que rodopiam à distancia sobre as areias e no bando de abutres que nas alturas parece acompanhar os espíritos nas suas danças espirais, junto com eles também o seu pensamento vagueia para longe da terra dos Homens e do seu próprio corpo. Anseia apenas não abandonar mais este lugar, não regressar ao seu reino, feito do Homem que ele é para todos os outros Homens que o habitam.

A noite chegou e partiu, muitas outras noites se passaram e juntamente com elas caiu Sirpula primeiro e depois todos os reinos, impérios e nações. Urukagina, ainda agora se encontra deitado debaixo da mesma Figueira, mantido vivo pelo eterno néctar dos figos que lhe desagua nos lábios, nem a dormir nem acordado, apenas a passear os seus sonhos de olhos bem abertos, juntamente com os espíritos do deserto e os bandos de abutres que dançam ao som do cio das cigarras, longe de si, longe dos tempos.

sexta-feira, junho 22, 2007

II


Ainda cativo do comboio lancei-lhe a âncora do meu sono e agora resido nestas eternas viagens. Esmagado pelo peso dos olhos, de tempos a tempos ainda vislumbro todo o mundo cheio de dormência a correr lá fora. O mar, o rio e os céus passam-me fugazes e distantes até se perderam de novo no sonho. Já me perdi até no tempo, juro que não sei há quantas Eras aqui estou... Do oceano para o rio e do rio para o oceano, viagem sem fim e sem ponto de partida ou chegada, escuto apenas o eterno murmurar das carruagens a deslizarem sobre os carris feitos de metálico tempo e uma vez por outra, o grito da velha Leviatã que vive nas margens líquidas do mundo.

A chuva parou, desperto com os guarda-chuvas a debandarem como pássaros pela minha janela. Os braços do sol escapam-se em esforço por entre as nuvens estendendo-se até tocarem na superfície do chumbo das águas. Todo o céu se revolta numa dinâmica lânguida ao erguer da Leviatã, aí, antes de me perder de novo, mergulho o pensamento nas planícies do firmamento, ouvindo cada vez mais distantes as vozes dos fantasmas. Até esse silencio se tornar na minha voz e por fim, na antiga língua das serpentes.

quinta-feira, maio 31, 2007

Insónia Febril



Deveria estar acordado
e não durmo,
escorrem-me as horas
pesadas como sombras
pela face,
cola-se-me o tempo ao corpo.

Sinto esta madrugada corrompida.
O dia artificial como uma peste
afugenta o sono das paredes
e o tempo arrasta-se enfermo,
dependurado no que resiste à luz.
...de mim não se aparta,
não cala o sopro de quem chora,
não pára o grito sussurrado,
o desespero incontido por me conter.

Há nas minhas sombras um frio profundo que se me crava nas costas,
uma vigília de morte que não me deixa morrer.

quarta-feira, maio 30, 2007

Abismo


Forma-se o tempo aqui
na ausência de tudo.
Edificam-se torres
de formas fragmentadas
e as sinistras silhuetas,
sobre quem nem as velhas cobras
ousam sibilar.
Percorro-me aí
perdido em labirintos desprovidos de paredes
há muito desgastados pela fricção das asas.

Corpo.
Templo inútil
abandonado.
Serve-se a glória eterna
em corredores de fogo inalados
e sonhos de dragão primordial.
Na língua dormem palavras antigas
escoadas pelos olhos fixos no abismo ascendente.
O universo dilui-se docemente
na minha boca de Inferno.

Que caminho decidi tomar…
Coroam as margens as ruínas dos edifícios humanos
e no trilho, miríades de anjos,
como insectos,
cobrem o solo no ultimo dos sonhos.

Que caminho…
Basta-me brindar à vida,
com um cálice cheio de Morte.

sexta-feira, maio 25, 2007

Manhã de Maio






No despertar o corpo está morto. Desmente-se apenas pelo calor latejante do sexo e pela sensação de fome. Lá fora, embora primavera, não são os pássaros que cantam mas os céus que desabam com harmonia de encontro ao solo. O sol afastou-se deste pedaço de terra faz uma semana e Deus na tentativa de ocultar tão estranho cataclismo, cobriu os céus de cinza invernal, para salvar os Homens de tão grande monotonia trajada de pálido e insalubre azul. De volta à terra, o tabaco é cuidadosamente lavrado sobre a mortalha enquanto o cadáver agora acordado se desenrola lentamente da sua. Inspira… Parece de facto o primeiro respirar desde há muitas horas, o fumo ocupa o interior do corpo com gentileza e espanta a fome, ao expirar, os olhos ainda a deambularem entre mundos, acompanham o fumo, como se ele levasse em si diluídos os primeiros pensamentos do dia e os últimos da noite. Mais um cigarro ainda antes do corpo se erguer, de facto parece que não há veneno que chegue. E o corpo desliza sem pensar, detêm-se apenas por mais alguns momentos coberto pelo manto de água que desaba do chuveiro, ali inebriado pela amena vertigem do tabaco matinal, parece que a morna temperatura dos pensamentos se funde com o ar. Com a toalha retiram-se as ultimas gotas desta sublime droga e como que a levitar… eis o mundo exterior. Efectivamente os sentidos cegos não mentiram, os cascos do Inverno mostram-se vigorosos em pleno fim de Maio, destroços de céu cobrem as ruas e as pessoas que caminham sobre os destroços parecem elas mesmas destroços mas sem estarem cobertas de céu algum. Meto-me no carro rumo à estação dos comboios, como uma lamina corto lentamente esta massa uniformemente cinzenta enquanto contemplo todo o amargo da beleza do mundo. A fome volta a ferir-me o estômago e os céus a cariem com mais veemência, ainda no interior do carro preparo mais um cigarro para me alimentar. Caminho então para o comboio de cigarro resguardado na mão, é bom sentir o frio da chuva a beijar-me a cara e o respirar desta Primavera moribunda que maternamente mantêm o ar quente. Rodeado pela náusea colorida dos chapéus-de-chuva apago o cigarro e entro na carruagem, jogo-me de novo à morte.