quarta-feira, janeiro 02, 2008

III

Espreito pela janela do comboio e os céus ainda estão cinzentos. Abençoados sejam.

Os fantasmas por aqui deambulam como sempre, vestidos da sua morte. A mim cobrem-me as vestes deste ódio dourado que me fez cego para o mundo. Lá fora o rio segue sempre cheio dos meus pensamentos.

À volta do meu pulso firma-se algo – a tua mão. Gritam os carris, os fantasmas, o Rio, os céus, A velha Leviatã! O choro Dela é meu! Os bandos de chapéus-de-chuva a voarem paralelamente ao comboio recolhem-se, recolhe-se o mundo, numa esfera de improvável azul, fecham-se as pálpebras, recolhem-se as lágrimas com a ponta de ouro de uma asa. A tua mão, firme em mim, a tua mão seguida do teu corpo e do fogo dos teus cabelos e seguindo a extremidade dos teus cabelos… vinte e cinco mil, vinte e cinco mil milhões de quilómetros sem te reconhecer, a distância exacta que separa a minha mão esquerda da oposta.

E o peso dessa distância carrego-o junto com o meu silêncio, é meu nesta viagem.